Ao volante do Chevrolet

08/06/2021 Comentarios desactivados en Ao volante do Chevrolet

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  – 37.

Al volante del Chevrolet por la carretera de Sintra,
Al claro de luna y al sueño, en la carretera desierta,
Solitario manejo, manejo casi despacio, y un poco
Me parece, o me esfuerzo un poco para que me parezca,
Que sigo por otra carretera, por otro sueño, por otro mundo,
Que sigo sin haber dejado Lisboa, aún sin tener Sintra
Que sigo, ¿y qué más habrá en seguir sino parar pero seguir?
 
Voy a pasar la noche en Sintra por no poder pasarla en Lisboa,
Pero, cuando llegue a Sintra, tendré la pena de no haberme quedado en Lisboa
Siempre esta inquietud sin propósito, sin nexo, sin consecuencia,
Siempre, siempre, siempre,
Esta angustia excesiva del espíritu por ninguna cosa,
En la carretera de Sintra, o en la carretera del sueño, o en la carretera de la vida…
 
Maleable a mis movimientos subconscientes del volante,
Abajo salta conmigo el automóvil que me prestaron.
Me sonrío del símbolo, de pensar en él, y al doblar a la derecha.
¡En cuántas cosas que me prestaron yo sigo en el mundo!
¡Cuántas cosas que me prestaron manejo como mías!
¡Cuánto que me prestaron, ay de mí, soy yo mismo!
 
A la izquierda la casucha -sí, la casucha- a la vera del camino.
A la derecha el campo abierto, con la luna a lo lejos.
El automóvil, que hace poco parecía darme libertad,
Es ahora una cosa donde estoy encerrado,
Que puedo conducirlo sólo si estoy encerrado en él,
Que domino sólo si me incluyo en él, si él me incluye.
 
A la izquierda allá hacia atrás, la casucha modesta, más que modesta.
La vida allí debe ser feliz, sólo porque no es la mía.
Si alguien me vio desde la ventana de la casucha soñará: Aquel debe ser feliz.
Tal vez al niño que espiaba por los vidrios de la ventana del piso superior,
Quedé (con el automóvil prestado) como un sueño, un hada real.
Tal vez a la muchacha que miró, oyendo el motor por la ventana de la cocina en el piso de tierra.
Soy algo del príncipe de todo corazón de muchacha,
Y ella me mira de reojo, por los vidrios hasta la curva en que me pierda.
Dejaré sueños atrás de mí, ¿o es el automóvil el que los deja?
Yo, conductor del automóvil prestado, o ¿el automóvil prestado que conduzco?
 
En el camino de Sintra al claro de luna, en la tristeza, ante los campos y la noche,
Manejando el Chevrolet prestado desconsoladamente,
Me pierdo en la carretera futura, desparezco en la distancia que alcanzo,
Y en un deseo terrible, súbito, violento, inconcebible,
Acelero…
Pero mi corazón quedó en el montón de piedras que esquivé al verlo sin verlo,
A la puerta de la casucha,
Mi corazón vacío,
Mi corazón insatisfecho,
Mi corazón más humano que yo, más exacto que la vida.
 
En la carretera de Sintra, cerca de la medianoche, al claro de luna, al volante,
En la carretera de Sintra, qué cansancio de la propia imaginación,
En la carretera de Sintra, cada vez más cerca de Sintra,
En la carretera de Sintra, cada vez menos cerca de mí…

Se estou só, quero não estar

25/09/2020 Comentarios desactivados en Se estou só, quero não estar

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

2-7-1931

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930-1935). (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).

Como Fernando Pessoa Salvou Portugal

25/09/2020 Comentarios desactivados en Como Fernando Pessoa Salvou Portugal

Como Fernando Pessoa salvou Portugal (Eugène Green, 2018)

Ora toda gente que serve deve, parece-nos, buscar a agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve (…); partindo não do princípio de que os outros pensam como nós, ou devem pensar como nós (…), mas do princípio de que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles.”
Fernando Pessoa, para a Revista de Comércio e Contabilidade.

En estos días, en los que Eugène Green está siendo expulsado, perseguido, calumniado, insultado, por obrar de acuerdo con su conciencia y con el sentido común, no obedeciendo normas arbitrarias, injustas y perjudiciales para la salud física y mental de la humanidad, algunos nos sentimos obligados a rendirle un homenaje disfrutando de sus películas. Películas, las de Eugène Green, que casi siempre pasan desapercibidas, a pesar de su enorme calidad, lo que viene a demostrar una vez más que Eugène Green es una pesona libre de ataduras, que no se pliega a los convencionalismos ni a las exigencias del mercado ni siquiera a las exigencias de un festival de cine y mucho menos a las normas arbitrarias diseñadas para someter a la población a una obediencia ciega, cual rebaño de ovejas.

En realidad no fue Fernando Pessoa, sino Álvaro de Campos -uno de sus muchos heterónimos-, el autor de la frase que serviría para publicitar la cocacola en Portugal y que nunca llegó a ser utilizada, ya que la famosa bebida refrescante no fue comercializada en Portugal hasta después de la Revolución de los Claveles, precisamente gracias a la frase de marras.

Esta peliculita es una peliculaza. Inácio Araujo, crítico de Folha de S. Paulo, escribió sobre esta película lo siguiente:

En los 26 minutos de Como Fernando Pessoa Salvou Portugal hay más cine que en casi todos los largometrajes que se han visto en los últimos tiempos. Hay más comedia que en mucha comedia. Hay más drama que en mucho drama.

 

 

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Fado de Pessoa

28/04/2020 Comentarios desactivados en Fado de Pessoa

Um fado pessoano
Num bairro de Lisboa
Um poema lusitano
No dizer de Camões
Uma gaivota em terra
Um sujeito predicado
Um porto esquecido
Um barco ancorado
Leva-as o vento
Meras palavras
Guarda no peito
A ingenuidade
Figura de estilo
Tua voz na proa
De um verso já gasto
No olhar de Pessoa
Uma frase perfeita
E um beijo prolongado
Uma porta aberta
Traz odor a pecado
Uma guitarra com garra
Ouvida entre os umbrais
Numa cidade garrida com vista para o cais
Leva-as o vento
Meras palavras
Guarda no peito
A ingenuidade
Figura de estilo
Tua voz na proa
De um verso já gasto
No olhar de Pessoa
Leva-as o vento…

letra: Joao Pedro Pais

ENCOLHER DE OMBROS

28/04/2020 Comentarios desactivados en ENCOLHER DE OMBROS

Me duele un sentimiento que desconozco; me falta un argumento no sé sobre qué; no tengo deseo en los nervios. Estoy triste por debajo de la conciencia.

 

Bernardo Soares   (Fernando Pessoa)

ENCOLHER DE OMBROS

L. do D.

ENCOLHER DE OMBROS

Damos commumente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que não lhe compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém, não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.

Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, ou tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar —, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto… E deixo de escrever porque deixo de escrever.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

 

ENCOGIMIENTO DE HOMBROS

Damos comúnmente a nuestras ideas de lo desconocido el color de nuestras nociones de lo conocido: si llamamos a la muerte un sueño, es porque parece un sueño por fuera; si llamamos a la muerte una nueva vida, es porque parece una cosa diferente de la vida. Con pequeños malentendidos con la realidad construimos las creencias y las esperanzas, y vivimos de las cortezas a las que llamamos panes, como los niños pobres que juegan a ser felices.

Pero así es toda la vida; así, por lo menos, es ese sistema de vida particular al que, en general, se llama civilización. La civilización consiste en dar a algo un nombre que no le compete, y después soñar sobre el resultado. Y, realmente, el nombre falso y el sueño verdadero crean una nueva realidad. El objeto se vuelve realmente otro. Manufacturamos ideales. La materia prima sigue siendo la misma, pero la forma, que el arte le ha dado, la aleja de continuar siendo efectivamente la misma. Una mesa de pino es pino pero también es mesa. Nos sentamos a la mesa y no al pino. Un amor es un instinto sexual, pero no amamos con el instinto sexual, sino con la presuposición de otro sentimiento. Y esa presuposición es ya, en efecto, otro sentimiento.No sé qué efecto sutil de luz, o ruido vago, o memoria de perfume o música, tañida por no sé qué influencia externa, me ha traído de repente, en pleno ir por la calle, estas divagaciones que anoto sin prisa, al sentarme, en el café, distraídamente. No sé a dónde iba a conducir los pensamientos, o dónde preferiría conducirlos. El día es de una leve niebla húmeda y caliente, triste sin amenazas, monótono sin razón. Me duele un sentimiento que desconozco; me falta un argumento no sé sobre qué; no tengo deseo en los nervios. Estoy triste por debajo de la conciencia. Y escribo estas líneas, realmente mal-anotadas, no para decir esto, ni para decir nada, sino para dar un trabajo a mi distracción. Voy llenando lentamente, a trazos flojos de lápiz —que no tengo sentimentalismo para afilar— el papel blanco de envolver los bocadillos que me han dado en el café, porque no necesitaba uno mejor y cualquiera servía, siempre que fuese blanco. Y me doy por satisfecho. Me reclino. La tarde cae monótona y sin lluvia, con un tono de luz desalentado e inseguro… Y dejo de escribir porque dejo de escribir.

Dios

29/11/2019 Comentarios desactivados en Dios

José Sobral de Almada Negreiros, «Retrato de Fernando Pessoa»

 

He nacido en un tiempo en que la mayoría de los jóvenes habían perdido la creencia en Dios, por la misma razón que sus mayores la habían tenido: sin saber por qué. Y entonces, porque el espíritu humano tiende naturalmente a criticar porque siente, y no porque piensa, la mayoría de los jóvenes ha escogido a la Humanidad como sucedáneo de Dios. Pertenezco, sin embargo, a esa especie de hombres que están siempre al margen de aquello a lo que pertenecen, no ven sólo la multitud de la que son, sino también los grandes espacios que hay al lado. Por eso no he abandonado a Dios tan ampliamente como ellos ni he aceptado nunca a la Humanidad. He considerado que Dios, siendo improbable, podría ser; pudiendo, pues, ser adorado; pero que la Humanidad , siendo una mera idea biológica, y no significando más que la especie animal humana, no era más digna de adoración que cualquier otra especie animal. Este culto de la Humanidad , con sus ritos de Libertad e Igualdad, me ha parecido siempre una resurrección de los cultos antiguos, en que los animales eran como dioses, o los dioses tenían cabezas de animales.

Así, no sabiendo creer en Dios, y no pudiendo creer en una suma de animales, me he quedado, como otros de la orilla de las gentes, en esa distancia de todo a que comúnmente se llama la Decadencia. La Decadencia es la pérdida total de la inconsciencia; porque la inconsciencia es el fundamento de la vida. El corazón, si pudiese pensar, se pararía.

A quien como yo, así, viviendo no sabe tener vida, ¿qué le queda sino, como a mis pocos pares, la renuncia por modo y la contemplación por destino? No sabiendo lo que es la vida religiosa, ni pudiendo saberlo, porque no se tiene fe con la razón; no pudiendo tener fe en la abstracción del hombre, ni sabiendo siquiera qué hacer de ella ante nosotros, nos quedaba, como motivo de tener alma, la contemplación estética de la vida. Y, así, ajenos a la solemnidad de todos los mundos, indiferentes a lo divino y despreciadores de lo humano, nos entregamos fútilmente a la sensación sin propósito, cultivada con un epicureísmo sutilizado, como conviene a nuestros nervios cerebrales.

Reteniendo, de la ciencia, solamente aquel precepto suyo central de que todo está sujeto a leyes fatales, contra las cuales no se reacciona independientemente, porque reaccionar es haber hecho ellas que reaccionásemos; y comprobando que ese precepto se ajusta al otro, mas antiguo, de la divina fatalidad de las cosas, abdicamos del esfuerzo como los débiles del entrenamiento de los atletas, y nos inclinamos sobre el libro de las sensaciones con un gran escrúpulo de erudición sentida.

No tomando nada en serio, ni considerando que nos fuese dada, por cierta, otra realidad que nuestras sensaciones, en ellas nos refugiamos, y a ellas exploramos como a grandes países desconocidos. Y, si nos empleamos asiduamente, no sólo en la contemplación estética, sino también en la expresión de sus modos y resultados, es que la prosa o el verso que escribimos, destituidos de voluntad de querer convencer al ajeno entendimiento o mover la ajena voluntad, es apenas como el hablar en voz alta de quien lee, como para dar objetividad al placer subjetivo de la lectura.

Sabemos bien que toda obra tiene que ser imperfecta, y que la menos segura de nuestras contemplaciones estéticas será la de aquello que escribimos. Pero, imperfecto y todo, no hay poniente tan bello que no pudiese serlo más, o brisa leve que nos dé sueño que no pudiese darnos un sueño todavía más tranquilo. Y así, contempladores iguales de las montañas y de las estatuas, disfrutando de los días como de los libros soñándolo todo, sobre todo para convertirlo en nuestra íntima substancia, haremos también descripciones y análisis que, una vez hechos, pasarán a ser cosas ajenas que podemos disfrutar como si viniesen en la tarde.

No es éste el concepto de los pesimistas, como aquel de Vigny, para quien la vida es una cárcel, en la que él tejía paja para distraerse. Ser pesimista es tomar algo por trágico, y esa actitud es una exageración y una incomodidad. No tenemos, es cierto, un concepto de valía que apliquemos a la obra que producimos. La producimos, es cierto, para distraernos, pero no como el preso que teje la paja, para distraerse del Destino, sino como la joven que borda almohadones para distraerse, sin nada más.

Considero a la vida como una posada en la que tengo que quedarme hasta que llegue la diligencia del abismo. No sé a dónde me llevará, porque no sé nada. Podría considerar esta posada una prisión, porque estoy compelido a aguardar en ella; podría considerarla un lugar de sociabilidad, porque aquí me encuentro con otros. No soy, sin embargo, ni impaciente ni vulgar. Dejo a lo que son a los que se encierran en el cuarto, echados indolentes en la cama donde esperan sin sueño; dejo a lo que hacen a los que conversan en las salas, desde donde las músicas y las voces llegan cómodas hasta mí. Me siento a la puerta y embebo mis ojos en los colores y en los sonidos del paisaje, y canto lento, para mí solo, vagos cantos que compongo mientras espero.

Para todos nosotros caerá la noche y llegará la diligencia. Disfruto la brisa que me conceden y el alma que me han dado para disfrutarla, y no me interrogo más ni busco. Si lo que deje escrito en el libro de los viajeros pudiera, releído un día por otros, entretenerlos también durante el viaje, estará bien. Si no lo leyeran, ni se entretuvieran, también estará bien.

 

Fernando Pessoa, Libro del desasosiego, «Trecho inicial»

leer

15/02/2019 Comentarios desactivados en leer

Dibujo de Ricardo Ranz

Ler é sonhar pela mão de outrem.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

RUBAIYAT. Canciones para beber

05/11/2018 Comentarios desactivados en RUBAIYAT. Canciones para beber

Fernando Pessoa, RUBAIYAT. Canciones para beber. Selección y traducción de Beñat Arginzoniz. Edición bilingüe. El Gallo de Oro, 2015

Ilustración de la portada: Cristina Morano

Nâo sejas curioso do amplo mundo.
Elle é menos extenso do que fundo.
E o que nâo sabes nem saberás nunca
É isso o mais real e o mais profundo.

No seas curioso del amplio mundo.
Tiene menos de extenso que de hondo.
Y lo que tú no sabes ni sabrás nunca:
Eso es lo más real y lo más profundo.

«La versión rimada de los Rubaiyat que realizó el poeta Edward Fitzgerald (1859 y posteriores) fue definitiva en la atención que Pessoa dedicó a los versos del sabio persa. Su condición de anglófono le permitió acceder directamente a esta traducción, que fue, a través del mundo anglosajón, la que dio lugar a la fascinación de occidente por el poeta, matemático y astrónomo, Omar Khayyam. (Beñat Arginzoniz, en la Presentación)

«Fascinado por los Rubaiyat [cuartetas] de Omar Khayyam, Pessoa escribió durante sus últimos años de vida estos maravillosos poemas, pequeñas joyas poéticas donde se nos invita a gozar del instante fugitivo y a olvidarnos de promesas futuras. En este canto a la belleza nos encontramos frente a un Pessoa íntegro, y paradójicamente unitario, donde asoman las preocupaciones existenciales del Livro do desassossego, el epicureismo de Ticardo Reis y los trazos fundamentales de la metafísica de Alberto Caeiro. Y particularmente frente a un Pessoa en la desolación de un final sentido y presentido, hermanado a Omar Khayyam, en ese interrogarse lúcido sobre el ser y el existir de quien se encuentra, sabiéndolo ya, frente al último espejo.» (De la contraportada del libro)

¿Qué se puede decir de un libro de poemas que no lo digan ya los mismos poemas? Se puede hablar de Fernando Pessoa a través de sus poemas. También se puede hablar de Beñat Arginzoniz a través de su interpretación y reelaboración de los poemas de Pessoa. También se puede hablar de Omar Khayyam, que fue quien inspiró a Pessoa, y que todavía inspira a quienes leen sus cuartetas… Pero también podemos guardar silencio y escuchar los ecos que quedan dentro de nosotros después de leer en voz alta estas breves composiciones poéticas.

Fernando Pessoa en el establecimiento de bebidas Abel Pereira da Fonseca, en 1929

Troca por vinho o amor que nâo terás.
O que speras, perenne o sperarás.
O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.
Morto, que rosas é que cheirarás?

Cambia por vino el amor que no tendrás.
Lo que esperas, por siempre lo esperarás.
Lo que bebes, tú lo bebes. Mira las rosas.
Una vez muerto… ¿qué rosas olerás?

Reseñas:

Bebamos, amor, bebamos: todo al olvido invita.
Yo que medito siempre, solamente en dos días
no he querido pensar ni jamás he pensado:
el que está por venir y aquel que ya ha pasado.

The Rubaiyat of Dorothy Ashby

Imitación de Pessoa

14/10/2018 Comentarios desactivados en Imitación de Pessoa

Para isso precisas não tocar em nada. Se tocares, o teu sonho morrerá, o objeto tocado ocupará a tua sensação.
Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar. Não se aproximar —eis o que é fidalgo.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
IMITACIÓN DE PESSOA

… No toques nada. Si tocas tu sueño, morirá.
La única aristocracia es nunca tocar. No
acercarse: he ahí lo que es hidalgo.
F.Pessoa, del libro del
desasosiego.

Sé como yo: Amor, no seas.
Y huye, huye del Ser
besando una vez más el oscuro enigma
que llevas por costumbre atado al traje del colegio.
Que vivir es sólo esto, Amor, no sientas
en ti el vértigo ni su zarpa de animal: la vida.
Huye del Ser: Amor, no seas.
Que es impura la noche y no nos bendice el rocío,
que no sientas su peso, Amor, que no es cierto,
que un engaño es la mirada si no conduce a la nada.
Sé como un santo de la vida, Amor, no seas,
que no llenen tus ojos de ceniza,
que no te manchen, Amor, que nada hay
salvo llanto y risa entre los rosarios, nada
salvo torpeza incesante entre los tentáculos del día.
Y es por eso que te digo, Amor, sé virgen,
virgen como un santo de la vida,
sé como yo, no seas.

Beñat Arginzoniz, Las voces de la nada.

Navigare necesse

01/10/2018 Comentarios desactivados en Navigare necesse

«Navigare necesse; vivere non est necesse»

(Frase de Pompeyo, general romano, 106-48 A.C., dicha a los marineros, amedrentados, que recusaban viajar durante la guerra, cf. Plutarco, en Vida de Pompeyo.)

O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

Caetano Veloso

Navegar es preciso, vivir no es preciso from Alfonso Delgado on Vimeo.

 

Navegar é preciso

(Fernando Pessoa)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
«Navegar é preciso; viver não é preciso.»(*)

Quero para mim o espirito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessario; o que é necessario é criar.

Nao conto gozar a minha vida; nem em goza-la penso.
Só quero torna-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torna-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essencia animica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

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